terça-feira, novembro 24, 2015

Reich vs Pepetela

Ao analisar a vida e obra de Wilhelm Reich, deparamo-nos com duas pessoas distintas – uma teórica e uma prática.
Não nos interessa tanto a parte prática do seu trabalho. Essa roça quase a loucura e, a veracidade, ou mesmo a utilidade das suas descobertas no campo da “energia vital” (ou orgone) podem, por alguns, ser consideradas como não fundamentadas correctamente ou mesmo não válidas, tendo mesmo alguns contemporâneos seus, achado que se tratava de uma verdadeira “caça aos gambuzinos”.
Quanto à parte teórica do seu trabalho, essa é a que realmente pretendo explorar, propondo uma leitura do romance de Pepetela – Mayombe – à luz de algumas das suas teorias como sejam a da revolução sexual e da função do orgasmo.

Wilhelm Reich nasceu a 24 de Março de 1897 em Dobrjanici (na época pertencente ao Império Austro-Húngaro) e faleceu a 3 de Novembro de 1957 na prisão de Lewisburg, no estado da Pensilvânia (E.U.A.).
Reich nasceu no seio de uma família abastada de judeus anglicizados. Desde muito cedo que se interessou pelos fenómenos e funções naturais, provavelmente pelo facto de morar em constante contacto com a natureza. Na sua autobiografia, Passion of Youth, Reich conta que com quatro anos já conhecia o essencial da sexualidade humana e animal e que por volta dessa altura terá mesmo tentado ter relações com uma sua criada, tendo tido a sua primeira relação aos onze anos com a cozinheira.
O autor frequentou a escola em casa até aos treze anos, tendo sido durante esse tempo que a sua mãe se envolveu com o seu tutor. O jovem Reich, chegou mesmo a espiar as relações da mãe com o seu amante, tendo mesmo sentido algum desejo por ela. Mais tarde o jovem Reich contou ao pai do caso amoroso da mãe, e este passou a atormentá-la diariamente, conduzido ao seu suicido em finais de 1910. Carregado de remorsos, o seu pai acabaria, também, por cometer suicídio em 1914. Assim, Reich encontrou-se sozinho, com o seu irmão e a tomar conta deste e dos destinos da quinta que possuíam.
Ainda nesse ano, integra o exército austríaco e serve na I Guerra Mundial. Em 1918, com o final da guerra, ingressa nos estudos superiores e rapidamente termina o seu curso com grandes louvores. Tendo terminado os estudos, tornou-se o primeiro assistente clínico de Freud que havia conhecido na preparação de um seminário sobre sexologia. As teorias edipianas e de repressão de Freud, levaram Reich a escrever em 1927 A Função do Orgasmo. Desta obra, ressalvamos a importância do orgasmo e a sua capacidade de curar doenças. É a incapacidade de gratificação que conduz a doenças do foro psíquico. O autor pretende mostrar que a falta de uma sexualidade saudável nas relações, leva a problemas de concentração, de irritabilidade e em último caso, a procurar gratificação fora das relações. Não defende nunca a poligamia. Antes pelo contrário, defende que a satisfação sexual vem da relação amorosa. O casal, independentemente da orientação, deve manter uma relação amorosa sólida, mas sem congestionamentos sexuais.
Essa ligação com Freud terminou, no entanto, em 1929 por razões ideológicas.
Em 1929, visita a URSS, fica fascinado com as leis que descriminalizam a homossexualidade, o aborto, os divórcios, a criação de centros de planeamento familiar e a larga difusão de métodos contraceptivos, mas decepcionado com o Estalinismo que em 1933 voltou a criminalizar a homossexualidade. Em 1936 publica A Revolução Sexual com base no que tinha assistido aí. Desta sua obra, importa revelar que o autor tinha a intenção de alertar consciências. Pretendia mesmo que a obra funcionasse como uma porta que abrisse caminho a uma sociedade e a um carácter auto-regulados. E a única forma possível de isso acontecer é, obrigatoriamente, quebrando com os valores obsoletos de uma sociedade não-liberal em valores. Uma sociedade ainda muito apegada ao cristianismo e aos valores da Igreja, mostrando-se contra uma visão redutora da sexualidade que estava destinada somente à reprodução, chegando mesmo a colocar a questão do prazer. Onde se encontra se a sexualidade não servir os seus propósitos?
Devido à sua militância política no Partido Comunista Austríaco e aos sucessivos ataques de que era alvo por parte dos seus colegas, acaba por emigrar para a Alemanha onde acabará por ser perseguido pelo partido Nazi. Daí foge para a Dinamarca, depois para a Suécia e para a Noruega. No entanto as suas convicções políticas não para de o perseguir, bem como as criticas de que é alvo por parte dos seus colegas como Freud entre outros.
Em 1939 parte para a América onde permanecerá até à sua morte, prosseguindo aí com o desenvolvimento das suas teorias e das suas investigações. A sua pesquisa leva-o, também aqui, a encontrar uma forte resistência por parte dos seus pares, tendo mesmo sido acusado de ser um “charlatão”. Não desiste e prossegue com a sua investigação, o que o leva à descoberta do “orgone”, a energia vital e primária no Universo, capaz de curar todos os males. Após várias lutas nos tribunais, acaba por perder e vai para a prisão em Março de 1957, tendo falecido em Novembro desse ano. Por ordem do tribunal, toda a sua pesquisa e obra foi destruída.
Reich tentou, no seu tempo, ser um Reformador. Pretendia mudar ideias, consciencializar a população como se pode ver nas obras, em particular nas que pretendo referir como são A Revolução Sexual e A Função do Orgasmo.
Não pretendo procurar validade, ou veracidade na obra de Wilhelm Reich. Não pretendo catalogá-lo ou inferir sobre a sua sanidade, ou falta dela, tão menos defendê-lo. Pretendo antes, procurar um paralelismo entre as suas teorias e a “revolução” que se encontra no romance Mayombe. Será que podemos analisar a obra à luz dos estudos de Reich? Será também Pepetela um “Reformador”, ou será apenas uma coincidência a relação que procuro? Espero com este trabalho chegar a algumas considerações válidas nessa área, mas, se tal não acontecer, o trabalho mostrará que o estudo de Reich na área da psicanálise se restringe a isso mesmo, não tendo influência alguma na construção das personagens do Mayombe e nas suas relações, neste caso as sexuais.
Wilhelm Reich sempre acreditou que os problemas da psique e mesmo muitas doenças físicas se prendiam com o facto de não existir uma economia-sexual. Por economia-sexual, entenda-se uma sociedade liberal e sem tabus no que às relações sexuais diz respeito. Uma relação sexual “gratificante” previne doenças e histerismo de massas. Mas para que tal possa suceder não pode existir um Estado repressivo, nem uma sociedade patriarcal truncada em valores de família obsoletos. Valores que censuram a sexualidade infantil e adolescente, que impedem a descoberta do corpo em tenras idades.
Após esta apresentação de parte da vida e obra de Reich, pretendo agora analisar as relações em Mayombe.
Assim, começo por enumerar as personagens de relevo para este trabalho. São elas o Comandante Sem Medo e a sua primeira mulher Leli, o Comissário João e a sua noiva Ondina. No entanto, Leli aparece na obra como uma “mulher-fantasma”. Foi a primeira mulher de Sem Medo e morreu ainda antes da história começar, mas vai aparecendo na história pela voz do Comandante e das suas lembranças, ou seja, não tem uma presença física, mas vai aparecendo a espaços.
A possível relação desta obra de Pepetela com as teorias professadas por Reich, contudo, não parece muito profunda. Não existe um avanço muito grande no domínio da sexualidade entre as personagens. Ainda assim, a ideia de crescimento pela sexualidade está presente, como mostra a construção da personagem do Comissário João. Este no início surge como sendo tímido e mesmo inexperiente em termos sexuais, incapaz de satisfazer, nem de conquistar a noiva sexualmente e isso reflecte-se, tanto na personagem (quase) apática que é, como na noiva , como se nota pela conversa entre João e Sem Medo: “Conquistá-la sexualmente, penso que ainda não o fizeste. […] ela tinha todo o aspecto de quem não estava totalmente saciada sexualmente.”. O sexo entre ambos era um acto mecânico do qual nenhum dos dois retirava qualquer tipo de prazer “ Fizeram amor […] ele sempre desajeitadamente. […] Ela sentia-se espiada e deixava de gozar: o orgasmo era um resultado mecânico de um acto maquinal.”. João surge como alguém completamente incapaz de satisfazer Ondina. E só quando sabe da traição ele é capaz de a satisfazer, como diz Ondina: “ Salvo da última vez. Quando me forçou, foi maravilhoso. Foi violento, apaixonado, pagava-se, desforrava-se, sem se preocupar com o pprazer que despertava no outro. Porque não era assim antes, Sem Medo?”. Podemos ver aqui a relação com a teoria da Função do Orgasmo de Reich. João é um ser social, formatado, incapaz de “gratificar” a noiva. Na obra de Pepetela, é quase um prenúncio para o que virá em seguida” O ventre de Ondina doía de insatisfação, ao voltarem à escola”. Reich teoriza em A Função do Orgasmo que a falta de “gratificação” nas relações sexuais, leva a relações fora da relação. É o que acontece. Ondina acaba por se envolver sexualmente com o chefe da missão em Dolisie (André).
Pepetela introduz uma mulher liberta de preconceitos, desapegada de sentimentos, que quer ser mulher e sentir prazer nas suas relações, mas existe ainda uma sociedade severa com uma moral individual capaz de condenar e é essa moral que leva tanto Sem Medo como Ondina a controlar desejos e impulsos sexuais. É este receio de se entregar às relações que condiciona a relação de Ondina com Sem Medo: “No aspecto sexual, por exemplo, a tua moral impede-te de satisfazer os teus desejos?”, ao que o Comandante responde: “ Mas era isso que eu dizia! Uma pessoa é levada a pensar nas consequências e trava os desejos.”. É provavelmente nesta passagem que conseguimos separar a obra de Pepetela das teorias de Reich. No seguimento da conversa entre Ondina e Sem Medo, este apresenta-nos um casal que conheceu na República Checa. Desse casal, o Comandante, apresenta-nos o que chama um casal libertino. São casados, mas é algo que não os impede de procurarem satisfação sexual junto de outros parceiros. Na opinião desse “libertino”, o homem, ou a mulher, são livres de aceitar ou recusar um determinado parceiro sexual, desde que possa aguentar com as consequências dos seus actos e não se incomodam com questões de moral individual, ou adultério. Pepetela mostra aqui que este casal que Sem Medo admira por ser um casal “libertino”, não é o casal de A Função do Orgasmo, pois não são homem, nem mulher de um só parceiro. Amam-se, mas não os impede de buscar satisfação sexual em outros parceiros e isso Reich não preconiza. Antes pelo contrário mostra que se houver uma relação sexual entre os elementos do casal, não há uma busca de novos parceiros.
A partir daqui, surge a relação sexual de Ondina com Sem Medo. Esta é uma relação de domínio. Sem Medo descreve-a como “um vulcão”. No entanto, ela submete-se ao Comandante. Considera-se capaz de uma “relação aberta”, mas quer estar com Sem Medo, diz que não se importa que haja outras mulheres, mas quere-o só para ela. É quase que incapaz de ser autónoma pois precisa de um homem que a controle, a quem ela se possa submeter.

Podemos, considerar a aproximação em determinados aspectos referidos anteriormente entre a produção de Mayombe e as teorias de Reich. Este último considera que uma revolução social não se pode conseguir sem uma revolução sexual, sem o fim de uma sociedade patriarcal, religiosa, incapaz de abrir mão de valores nefastos para uma saúde colectiva e individual. E isso é algo que podemos facilmente encontrar na obra de Pepetela.
Reich foi no seu tempo um reformador, ou pelo menos assim tentou, como mostra a sua obra. Professa que não pode existir uma revolução social, sem que haja primeiro uma revolução sexual. Parte da premissa de que “a sexualidade é o centro de gravitação da vida íntima e sexual” e desenvolve, tentando provar que a função orgástica impede o desenvolvimento natural (se não for atingida). Aproveita-se dos estudos de Freud, segundo os quais o desenvolvimento sexual é importante na formação do carácter e, ao interessar-se pela origem social das doenças mentais, aproxima-se das teorias marxistas sobre a alienação do individuo a um contexto social preciso. Era dentro da classe operária/proletária que se estava livre da “contaminação do micróbio burguês” e afastado de ilusões filtradas por ideais comunistas. É separado de uma sociedade patriarcal, regida por valores ainda muito ligados ao clericalismo e à Igreja, onde a condição económica é pior que a sexualidade é menos inibida. É partindo desse pressuposto e dessa observação de uma classe operária desinibida que Reich observa um decréscimo em problemas mentais e neuroses, ou “peste emocional”, como lhe chama.
No seu romance, Pepetela, mostra-nos o mesmo. As relações “abertas”, sexuais de Ondina, mostram essa quebra com uma sociedade patriarcal. Ondina é a representante feminina da classe operária. É desinibida e confiante da sua sexualidade, mas não corresponde de todo à generalidade da mulher angolana da sua época e está um passo à frente no seu tempo.
Se Pepetela é um reformador? Não no mesmo sentido que Reich foi, pois não mostra defender uma revolução social através, sobretudo através de uma revolução sexual, mas aponta um caminho e uma direcção a seguir que passa também por aí.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Violeta

As aventuras aproximaram-nos a todos, fizeram crescer a Amizade, o carinho e o Amor. Já não havia volta a dar. Como uma tatuagem ficariam para sempre gravados uns nos outros. Era algo que Tempo algum ou briga alguma faria apagar.
De repente Pedro escorrega, tropeça nos pés, desequilibra-se e cai. Tenta em vão agarrar-se a alguma coisa, a alguém, mas não consegue. Ele ainda tenta agarrar a sua mão. Escorrega, desliza e entra no caminho Violeta.
Um enorme silêncio é rasgado com o grito da Rita - MAAAANNOOOOOOOO!!!!!!!!!
-Nada a fazer, diz ele. Vai-se esquecer de nós, da mesma maneira que nós dele. Vai demorar algum tempo, mas é o que vai acontecer.
Ela desata a soluçar, as lágrimas começam a correr pela face, o sol começa a desaparecer e as nuvens a surgir. Acinzenta-se o mundo e o coração. -Quando ela chora chove!
-Tem de haver alguma coisa que possamos fazer!

domingo, janeiro 04, 2015

A construção!

Parece mais pequeno quando estamos longe dele. Assim que nos conseguimos finalmente aproximar, fica enorme. Fica gigantesco. Cada cor, leva a um caminho diferente, a um mundo de magia diferente. As cores (ou os caminhos) encontram-se todos alinhados, como que desenhados de propósito. Uma linha ténue separa todos os percursos. Mas os manos são avisados. - Cuidado com algumas das estradas. Nem tudo é bom num arco-íris! Existem criaturas perigosas em todo o lado, mesmo aqui. Mesmo em mundos de magia. Sobretudo em mundos de magia.
Mas que perigos? Que criaturas? - pergunta o Pedro.
Nós vamos seguir pelo caminho Verde. Esse é o caminho da esperança na juventude e na irreverência. Enquanto existirem crianças como vocês, o arco-íris vai continuar a existir. É o caminho que leva a nossa casa. É também o mais comprido para o outro lado, mas ainda assim o mais seguro - disse ele.
Depois há a estrada Vermelha. A estrada que leva à terra das fadas. São seres calorosos, cheios de energia e vitalidade. Mas por norma não se dão muito bem com duendes. A estrada Laranja é uma com a qual se deve ter muito cuidado. É o caminho das emoções. Se tivermos o azar de lá cair, corremos o risco de lá ficar perdidos por tempos indeterminados. Lá os nossos sentimentos são levados ao extremo. A vida é boa, mas tem de ser regrada. Imaginem se sentirem de mais!? É muito perigoso!! É mesmo muito dificil sair de lá. Nem todos conseguem, então pelo sim, pelo não, é melhor não tentarmos descobrir se conseguimos ou não sair. - disse ela
O caminho Amarelo, é o caminho que leva a casa dos Ogres. É também muito perigoso. Os Ogres são muito travesseiros. Gostam muito de fazer partidas, mas normalmente não acabam bem. Para além do mais, para eles somos uma espécie de brinquedos. Têm armadilhas ao longo de toda a estrada, para nos tentar apanhar. E quando conseguem, guardam-nos lá para sermos os seus "bonecos de trapos." O caminho Azul e Anis, são muito parecidos, e por se confundirem, são caminhos de travessuras. São uma espécie de labirinto, que ninguém conhece. Se lá formos podemos acabar na estrada Amarela, ou noutra qualquer, ou mesmo uma passagem directa para o fim do arco-íris. Mas é impossível saber..
E a Violeta? - perguntou a Rita.
Era o que ia explicar agora. A Violeta é a do esquecimento. Se lá formos, esquecemos tudo e todos. Mas o mais perigoso é que também seremos esquecidos. Ninguém em lado nenhum se lembrará de nós. Ninguém dará pela nossa falta.