sábado, novembro 05, 2016

um par de Colhões, não um par de orelhas

Não é esperado que este texto seja lido. É, no entanto, esperado que seja escrito!

São as histórias de sonhos destroçados por falta de coragem e, por uma Educação deficitária.
A falta de coragem não é minha. E a Educação não é a que os meus pais de deram. É a falta de coragem de classes políticas e de um sistema de ensino que caminha para um abismo.

Por altura da discussão do processo de Bolonha, fui um dos que nunca acreditou que trouxesse benefícios ao Ensino Superior português. Antes pelo contrário. Sou daqueles que (quer) acredita(r) que ainda temos um dos melhores ensinos do mundo. Os professores são excepcionais, as matérias são boas e adequadas. Os alunos saem muito bem preparados em termos intelectuais. Em jeito de brincadeira, os portugueses, da esquerda à direita, são informados e sabem que é mau um Trump à frente de uma América. São intelectuais! Mas as constantes reformas que se vêm após Bolonha, fazem-me crer que isto acabará. Uma adequação de um currículo de estudos a uma Europa, também ela a fragmentar-se, perdoem-me mas, só pode dar merda!

Eu entrei para a faculdade em 2000. Pré-Bolonha. É verdade. Fui conas! Devia ter feito o curso à primeira. Mas preferi andar a passear livros, a beber copos e a namoriscar. Depois "tive" de deixar de estudar e entrou em vigor em Portugal o ensino de Bolonha. Cadeiras e notas desapareceram. Cadeiras e notas apareceram. E eu fiquei sem saber bem o que fazer ou o que devia fazer. Um curso de 4anos, passou a 3. E saídas? No meu caso, como em muitos outros casos, as faculdades, universidades e ministérios, começaram a casa pelo telhado. Por mais que procure, indague, pesquise e pergunte, não encontro utilidade absolutamente alguma para o meu "canudo". E isto desmoraliza qualquer um. Ainda para mais porque os meus últimos anos saíram-me do corpo (literalmente) e não do "pai/mãetrocínio". Não quero desdizer de quem tem/pode ter os pais a financiar. Ainda bem que uma sociedade tem ricos e pobres (!), mas quero com isto dizer que entra aqui a falta de coragem. Era muito mais simples fechar de imediato os cursos para os quais NÃO HÁ saídas profissionais. Eu teria ficado a perder, mas ao menos sabia que havia coragem de alguém para...
Digam-me para mudar de área. Ser empreendedor. Não me importo. Mas isso aplica-se a um ensino profissional. Não a um ensino dito regular. Portugal foi durante anos o "país dos doutores". É hoje o "país dos técnicos". Temos técnicos super hiper mega qualificados o que tem repercussões na sua procura pelo mercado de trabalho internacional. Mas se hoje em dia não fores um técnico, temos pena...
Estuda! Aprofunda os teus conhecimentos! Perceberás que te desenvolves em termos intelectuais em em termos de desenvolvimento enquanto ser humano! Perceberás assim qual o teu lugar no mercado de trabalho! Talvez. Mas quem me financia? A Lei da Autonomia das Universidades, concede-lhes o direito de fixarem o valor das propinas. Sabemos que o valor máximo, em alguns casos, não chega para fazer face a todas as despesas. E a culpa é de quem? Minha não de certeza! Despedimentos, incentivos à fixação de estudantes, benefícios sociais, são tudo tabus dentro de um senado ou reitoria. Podes concorrer a uma Bolsa! Pois posso. Mas não posso estar a trabalhar. E se vem recusada? Em vez de um "borracho", fico sem pombos! Pedia coragem, mas se a minha me abandonou o ano passado, verdade que a de muitos fugiu há muito mais tempo.

Hoje em dia um aluno sai do secundário e vai para o superior. Escolhe o curso. Dentro da sua área de estudos tem de efectuar (com aproveitamento) um certo número de "créditos" (ainda não percebi o nome, será que alguém me deve alguma coisa? Tenho cento e tal créditos efectuados!). O mais engraçado é o que volume de créditos maior, pode ser efectuado fora da sua área de estudos. Vejamos por exemplo (e não sei quais os valores em número): Um aluno entra para Matemática. Para ter direito ao seu diploma, a juntar ao facto de não poder ter propinas atrasadas, tem de completar 120 créditos. Desses 120, 40/50, têm de ser dentro da área da Matemática, seja em Álgebra, ou Matemática Aplicada a ... Os restantes 70/80 créditos, podem ser efectuados em Iniciação ao Russo (!), ou Introdução ao Direito Penal (!). A ideia, dizem, é dotar os alunos de saberes abrangentes que lhes permita competir num mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Pois, mas eu queria Matemática! Ah, ok! Não sei quanto é 1+1, mas sei quantos anos de cadeia posso apanhar se não pagar os meus impostos.

Meus amigos, VÃO-SE FODER!!!! Continuem a adorar partidos e cores partidárias. Continuem a cultivar uma cultura de bajulação e esqueçam a "meritocracia".
Um dia, teremos um "Trump" em Portugal e andaremos todos "ó tio, ó tio, ó tio...". Nesse dia, em que percebermos que somos uma cambada de "burrinhos" que gostamos de copiar o que de bom se faz fora, sem estudar as consequências da sua aplicação a uma realidade económico-social como a nossa, talvez nesse dia nos cresçam um par igual aos do burro. Mas um par de Colhões, não um par de orelhas!!

terça-feira, setembro 06, 2016

Eu sabia

Eu sempre soube que ia morrer cedo. Ainda pensei que fosse com a idade de Cristo. Talvez para me convencer que seria melhor!

A minha alma vagueia sem destino. Vejo-me pendurado na trave. Vejo o mundo com mais clareza agora. Mas não consigo encontrar as falhas no meu destino.Onde raio estava o cruzamento onde me enganei a virar que me levou a este (in)feliz desfecho? Será que me enganei mesmo a virar em algum lado, ou tudo se conjugou para neste momento eu me encontrar inerte, com as mãos presas por cordas grossas que me arranham os pulsos como amarras de navios aportados em um cais?


quinta-feira, agosto 25, 2016

Lembras-te?

E a vontade que tive de te agarrar, levar-te para o fim do mundo e prender-nos lá?
Lembras-te? Foi quando... Espera!
Lógico que não te lembras. Eu não te disse. Como podias saber?
Assim também não sabes que me impediste de enfiar a merda do ar nos pulmões, que congestionaste a sua saída e me proibiste de te dizer: "Quero-te beijar!"

terça-feira, agosto 23, 2016

Beijo-te com os olhos

Quando dei por mim, tremia! Abanava com a corrente de ar que ficava da tua respiração, com o movimento que ficava da tua passagem por mim. Sim! A tua passagem por mim!!
E aquele "cliché" de ficar algo de alguém levar algo de alguém passou a fazer todo o sentido. Foram breves instantes que me souberam a uma vida a teu lado. Vi-te como não houvera visto ninguém. Escutei-te e procurei-te nas horas que não te tive, como nunca beijei ninguém. Nem mesmo tu. Nunca te beijei como deveria. Se o tivesse de voltar a fazer, acho que ainda não saberia como. Ainda não sei beijar com a boca. Só aprendi a beijar com os olhos. E esse beijo, digo-te o eu, é melhor que qualquer outro!

quinta-feira, agosto 18, 2016

Deixa-me dormir

Se me voltares a beijar, deixa-me dormir. Não me acordes. Não quero acordar sem saber a que sabem os teus lábios. Ou a saber. Nem sei bem.
Bodo. Amigos, conhecidos...
Estavas com alguém. Cumprimentaste o Luís. Vieste despedir-te de mim. Beijo na testa, entre os olhos, nariz, lábio e boca. Deixamo-nos continuar. Acordei com a boca tão molhada e tão doce que quase conseguia saber ao que sabiam!

terça-feira, agosto 09, 2016

O show das marionetas

FOI há tanto tempo que nem me lembro quando. Mas há tanto tempo, quanto? Tempo? Podíamos ficar palavras, linhas e parágrafos a tentar decidir quando foi, ou mesmo como foi. Mas importa? E o que importa? Importas tu? Importo eu? Ou importamos nós? Que se passou?
No dia em que te vi, naquele dia, naquele segundo ou naquele instante de momento em que te vi, mas VI mesmo, foi o segundo que se tornou Tempo. A Terra parou, o vento deixou de abanar as árvores, os pássaros imobilizaram-se no ar, os ribeiros, riachos e rios congelaram e as marés dos mares e oceanos hibernaram. Fiquei só no mundo. Só eu me mexia e circulava entre as personagens de uma peça de marionetas cujo encenador deixou em posição estática, esquecido do espectáculo do movimento.
A estaticidade do mundo deu-me o que há muito ansiava. A solidão e o silêncio! Tive todo o tempo do Tempo para correr o mundo. Fui a todos os recantos escondidos onde desejei ir mas, todas as noites me deixava invadir por uma solidão maior que a que havia desejado. Essa solidão instaurou-se na minha pele e eu tornei-me impotente na minha condição de único andante num mundo imóvel. Podia dispor de tudo e só queria voltar ao ponto de partida.
Iniciei a viagem de regresso, sem saber o que fazer, o que esperar. E quando te voltar a ver... Quero dormir! Quero dormir sem te ter na cabeça. Ou então sim.. Quero dormir a ter-te na cabeça. Quero embalar-te no regaço e beijar-te a testa. Quero abraçar-te e sentir a nossa respiração a encontrar-se até sermos só um a respirar. Ou então sim.. Quero fugir para aquele ponto da vida, do mundo e do tempo em que não sei quem és, nem onde estás. As contradições instalam-se em mim à medida que me sinto a aproximarmos-nos. Mas de que adianta? A imobilidade do mundo e das marionetas adormecidas e esquecidas não me deixam ver-te. Mas que aconteceu? Onde estás? Como é possível? Tive de me afastar para que também tu ganhasses a energia do movimento? Como é possível já não estares no mesmo sítio em que te deixei? Só queria imobilizar-me na tua frente e esperar que o Tempo me fizesse criar raízes junto de ti. Se o mundo não mais mexesse, saberia que estaria no sítio onde sempre quis estar. Mas tu mexeste-te, ou mexeram-te. Onde estás? E porque não me vês ou ouves? Quero-te encontrar para.. Não!! Não te quero encontrar. Tenho medo de me ter esquecido de.. Mas já me esqueci. Não sei onde estás. Não te vejo.
Quero que o encenador acorde e mova as marionetas. Mas quero que as troque de lugar e crie uma nova história. Uma em que... Uma em que... Uma em que eu não exista senão na minha lembrança, em que eu não existe senão em tudo e todos em que toquei e em que deixei as minhas impressões. E todos terão a marca e olhando para ela, perguntarão "Quem?", e terão a sensação de lembrança de algo que nunca aconteceu.

quarta-feira, maio 18, 2016

Ironia

Apareço à minha mãe, às 07 da manhã de um Domingo, completamente grosso, a cambalear, a fazer um basqueiro horrível e ela surge-me de vassoura na mão e diz "tás bonito, tás!". Eu respondo de imediato "Pudera. Sou teu filho. E vais varrer ou vais voar?"
Escusado será dizer que numa situação destas, a vassoura cairia de imediato - voando - em cima da minha cabeça.
Se assim é, onde está a ironia? Numa clara demonstração de ironia, eu respondo com duas afirmações que apesar de irónicas, demonstram desrespeito. Já a afirmação da minha mãe demonstra uma ironia sarcástica que se prende com o meu estado de ebriedade (ou falta dele).
Então como se vê a ironia e onde se pode, ou não utilizar nos dias que correm? Numa sociedade dita moderna, onde reinam as máximas de liberdade de expressão? Numa cultura aberta e universal, global, digital e tecnológica?

Antes de mais, é importante não esquecer que a ironia deve ser utilizada como elemento discursivo e recursivo-estilístico e é tão mais mordaz quanto o grau de abertura mental do interlocutor e do receptor. Se assim não fosse, como poderia a ironia ser responsável por uma boa parte da literatura - dita maior - de um país em tempos de ditaduras?
Sttau-Monteiro serviu-se dela para criticar um regime. Reynaldo Arenas também. Entre muitos outros que possam pensar seja na China, Rússia, Espanha, Itália, etc etc, etc.
Mas então porque nos sentimos tão ofendidos quando alguém lança para cima de nós uma ironia?
A explicação é simples e encontra-se também na justificação encontrada por F. Pessoa no seu artigo "O provincianismo português". Primeiro, porque não sabemos, ou esquecemos de como se usa a ironia. Depois, e mais importante, por isso mesmo... PORQUE SOMOS PROVINCIANOS!

terça-feira, novembro 24, 2015

Reich vs Pepetela

Ao analisar a vida e obra de Wilhelm Reich, deparamo-nos com duas pessoas distintas – uma teórica e uma prática.
Não nos interessa tanto a parte prática do seu trabalho. Essa roça quase a loucura e, a veracidade, ou mesmo a utilidade das suas descobertas no campo da “energia vital” (ou orgone) podem, por alguns, ser consideradas como não fundamentadas correctamente ou mesmo não válidas, tendo mesmo alguns contemporâneos seus, achado que se tratava de uma verdadeira “caça aos gambuzinos”.
Quanto à parte teórica do seu trabalho, essa é a que realmente pretendo explorar, propondo uma leitura do romance de Pepetela – Mayombe – à luz de algumas das suas teorias como sejam a da revolução sexual e da função do orgasmo.

Wilhelm Reich nasceu a 24 de Março de 1897 em Dobrjanici (na época pertencente ao Império Austro-Húngaro) e faleceu a 3 de Novembro de 1957 na prisão de Lewisburg, no estado da Pensilvânia (E.U.A.).
Reich nasceu no seio de uma família abastada de judeus anglicizados. Desde muito cedo que se interessou pelos fenómenos e funções naturais, provavelmente pelo facto de morar em constante contacto com a natureza. Na sua autobiografia, Passion of Youth, Reich conta que com quatro anos já conhecia o essencial da sexualidade humana e animal e que por volta dessa altura terá mesmo tentado ter relações com uma sua criada, tendo tido a sua primeira relação aos onze anos com a cozinheira.
O autor frequentou a escola em casa até aos treze anos, tendo sido durante esse tempo que a sua mãe se envolveu com o seu tutor. O jovem Reich, chegou mesmo a espiar as relações da mãe com o seu amante, tendo mesmo sentido algum desejo por ela. Mais tarde o jovem Reich contou ao pai do caso amoroso da mãe, e este passou a atormentá-la diariamente, conduzido ao seu suicido em finais de 1910. Carregado de remorsos, o seu pai acabaria, também, por cometer suicídio em 1914. Assim, Reich encontrou-se sozinho, com o seu irmão e a tomar conta deste e dos destinos da quinta que possuíam.
Ainda nesse ano, integra o exército austríaco e serve na I Guerra Mundial. Em 1918, com o final da guerra, ingressa nos estudos superiores e rapidamente termina o seu curso com grandes louvores. Tendo terminado os estudos, tornou-se o primeiro assistente clínico de Freud que havia conhecido na preparação de um seminário sobre sexologia. As teorias edipianas e de repressão de Freud, levaram Reich a escrever em 1927 A Função do Orgasmo. Desta obra, ressalvamos a importância do orgasmo e a sua capacidade de curar doenças. É a incapacidade de gratificação que conduz a doenças do foro psíquico. O autor pretende mostrar que a falta de uma sexualidade saudável nas relações, leva a problemas de concentração, de irritabilidade e em último caso, a procurar gratificação fora das relações. Não defende nunca a poligamia. Antes pelo contrário, defende que a satisfação sexual vem da relação amorosa. O casal, independentemente da orientação, deve manter uma relação amorosa sólida, mas sem congestionamentos sexuais.
Essa ligação com Freud terminou, no entanto, em 1929 por razões ideológicas.
Em 1929, visita a URSS, fica fascinado com as leis que descriminalizam a homossexualidade, o aborto, os divórcios, a criação de centros de planeamento familiar e a larga difusão de métodos contraceptivos, mas decepcionado com o Estalinismo que em 1933 voltou a criminalizar a homossexualidade. Em 1936 publica A Revolução Sexual com base no que tinha assistido aí. Desta sua obra, importa revelar que o autor tinha a intenção de alertar consciências. Pretendia mesmo que a obra funcionasse como uma porta que abrisse caminho a uma sociedade e a um carácter auto-regulados. E a única forma possível de isso acontecer é, obrigatoriamente, quebrando com os valores obsoletos de uma sociedade não-liberal em valores. Uma sociedade ainda muito apegada ao cristianismo e aos valores da Igreja, mostrando-se contra uma visão redutora da sexualidade que estava destinada somente à reprodução, chegando mesmo a colocar a questão do prazer. Onde se encontra se a sexualidade não servir os seus propósitos?
Devido à sua militância política no Partido Comunista Austríaco e aos sucessivos ataques de que era alvo por parte dos seus colegas, acaba por emigrar para a Alemanha onde acabará por ser perseguido pelo partido Nazi. Daí foge para a Dinamarca, depois para a Suécia e para a Noruega. No entanto as suas convicções políticas não para de o perseguir, bem como as criticas de que é alvo por parte dos seus colegas como Freud entre outros.
Em 1939 parte para a América onde permanecerá até à sua morte, prosseguindo aí com o desenvolvimento das suas teorias e das suas investigações. A sua pesquisa leva-o, também aqui, a encontrar uma forte resistência por parte dos seus pares, tendo mesmo sido acusado de ser um “charlatão”. Não desiste e prossegue com a sua investigação, o que o leva à descoberta do “orgone”, a energia vital e primária no Universo, capaz de curar todos os males. Após várias lutas nos tribunais, acaba por perder e vai para a prisão em Março de 1957, tendo falecido em Novembro desse ano. Por ordem do tribunal, toda a sua pesquisa e obra foi destruída.
Reich tentou, no seu tempo, ser um Reformador. Pretendia mudar ideias, consciencializar a população como se pode ver nas obras, em particular nas que pretendo referir como são A Revolução Sexual e A Função do Orgasmo.
Não pretendo procurar validade, ou veracidade na obra de Wilhelm Reich. Não pretendo catalogá-lo ou inferir sobre a sua sanidade, ou falta dela, tão menos defendê-lo. Pretendo antes, procurar um paralelismo entre as suas teorias e a “revolução” que se encontra no romance Mayombe. Será que podemos analisar a obra à luz dos estudos de Reich? Será também Pepetela um “Reformador”, ou será apenas uma coincidência a relação que procuro? Espero com este trabalho chegar a algumas considerações válidas nessa área, mas, se tal não acontecer, o trabalho mostrará que o estudo de Reich na área da psicanálise se restringe a isso mesmo, não tendo influência alguma na construção das personagens do Mayombe e nas suas relações, neste caso as sexuais.
Wilhelm Reich sempre acreditou que os problemas da psique e mesmo muitas doenças físicas se prendiam com o facto de não existir uma economia-sexual. Por economia-sexual, entenda-se uma sociedade liberal e sem tabus no que às relações sexuais diz respeito. Uma relação sexual “gratificante” previne doenças e histerismo de massas. Mas para que tal possa suceder não pode existir um Estado repressivo, nem uma sociedade patriarcal truncada em valores de família obsoletos. Valores que censuram a sexualidade infantil e adolescente, que impedem a descoberta do corpo em tenras idades.
Após esta apresentação de parte da vida e obra de Reich, pretendo agora analisar as relações em Mayombe.
Assim, começo por enumerar as personagens de relevo para este trabalho. São elas o Comandante Sem Medo e a sua primeira mulher Leli, o Comissário João e a sua noiva Ondina. No entanto, Leli aparece na obra como uma “mulher-fantasma”. Foi a primeira mulher de Sem Medo e morreu ainda antes da história começar, mas vai aparecendo na história pela voz do Comandante e das suas lembranças, ou seja, não tem uma presença física, mas vai aparecendo a espaços.
A possível relação desta obra de Pepetela com as teorias professadas por Reich, contudo, não parece muito profunda. Não existe um avanço muito grande no domínio da sexualidade entre as personagens. Ainda assim, a ideia de crescimento pela sexualidade está presente, como mostra a construção da personagem do Comissário João. Este no início surge como sendo tímido e mesmo inexperiente em termos sexuais, incapaz de satisfazer, nem de conquistar a noiva sexualmente e isso reflecte-se, tanto na personagem (quase) apática que é, como na noiva , como se nota pela conversa entre João e Sem Medo: “Conquistá-la sexualmente, penso que ainda não o fizeste. […] ela tinha todo o aspecto de quem não estava totalmente saciada sexualmente.”. O sexo entre ambos era um acto mecânico do qual nenhum dos dois retirava qualquer tipo de prazer “ Fizeram amor […] ele sempre desajeitadamente. […] Ela sentia-se espiada e deixava de gozar: o orgasmo era um resultado mecânico de um acto maquinal.”. João surge como alguém completamente incapaz de satisfazer Ondina. E só quando sabe da traição ele é capaz de a satisfazer, como diz Ondina: “ Salvo da última vez. Quando me forçou, foi maravilhoso. Foi violento, apaixonado, pagava-se, desforrava-se, sem se preocupar com o pprazer que despertava no outro. Porque não era assim antes, Sem Medo?”. Podemos ver aqui a relação com a teoria da Função do Orgasmo de Reich. João é um ser social, formatado, incapaz de “gratificar” a noiva. Na obra de Pepetela, é quase um prenúncio para o que virá em seguida” O ventre de Ondina doía de insatisfação, ao voltarem à escola”. Reich teoriza em A Função do Orgasmo que a falta de “gratificação” nas relações sexuais, leva a relações fora da relação. É o que acontece. Ondina acaba por se envolver sexualmente com o chefe da missão em Dolisie (André).
Pepetela introduz uma mulher liberta de preconceitos, desapegada de sentimentos, que quer ser mulher e sentir prazer nas suas relações, mas existe ainda uma sociedade severa com uma moral individual capaz de condenar e é essa moral que leva tanto Sem Medo como Ondina a controlar desejos e impulsos sexuais. É este receio de se entregar às relações que condiciona a relação de Ondina com Sem Medo: “No aspecto sexual, por exemplo, a tua moral impede-te de satisfazer os teus desejos?”, ao que o Comandante responde: “ Mas era isso que eu dizia! Uma pessoa é levada a pensar nas consequências e trava os desejos.”. É provavelmente nesta passagem que conseguimos separar a obra de Pepetela das teorias de Reich. No seguimento da conversa entre Ondina e Sem Medo, este apresenta-nos um casal que conheceu na República Checa. Desse casal, o Comandante, apresenta-nos o que chama um casal libertino. São casados, mas é algo que não os impede de procurarem satisfação sexual junto de outros parceiros. Na opinião desse “libertino”, o homem, ou a mulher, são livres de aceitar ou recusar um determinado parceiro sexual, desde que possa aguentar com as consequências dos seus actos e não se incomodam com questões de moral individual, ou adultério. Pepetela mostra aqui que este casal que Sem Medo admira por ser um casal “libertino”, não é o casal de A Função do Orgasmo, pois não são homem, nem mulher de um só parceiro. Amam-se, mas não os impede de buscar satisfação sexual em outros parceiros e isso Reich não preconiza. Antes pelo contrário mostra que se houver uma relação sexual entre os elementos do casal, não há uma busca de novos parceiros.
A partir daqui, surge a relação sexual de Ondina com Sem Medo. Esta é uma relação de domínio. Sem Medo descreve-a como “um vulcão”. No entanto, ela submete-se ao Comandante. Considera-se capaz de uma “relação aberta”, mas quer estar com Sem Medo, diz que não se importa que haja outras mulheres, mas quere-o só para ela. É quase que incapaz de ser autónoma pois precisa de um homem que a controle, a quem ela se possa submeter.

Podemos, considerar a aproximação em determinados aspectos referidos anteriormente entre a produção de Mayombe e as teorias de Reich. Este último considera que uma revolução social não se pode conseguir sem uma revolução sexual, sem o fim de uma sociedade patriarcal, religiosa, incapaz de abrir mão de valores nefastos para uma saúde colectiva e individual. E isso é algo que podemos facilmente encontrar na obra de Pepetela.
Reich foi no seu tempo um reformador, ou pelo menos assim tentou, como mostra a sua obra. Professa que não pode existir uma revolução social, sem que haja primeiro uma revolução sexual. Parte da premissa de que “a sexualidade é o centro de gravitação da vida íntima e sexual” e desenvolve, tentando provar que a função orgástica impede o desenvolvimento natural (se não for atingida). Aproveita-se dos estudos de Freud, segundo os quais o desenvolvimento sexual é importante na formação do carácter e, ao interessar-se pela origem social das doenças mentais, aproxima-se das teorias marxistas sobre a alienação do individuo a um contexto social preciso. Era dentro da classe operária/proletária que se estava livre da “contaminação do micróbio burguês” e afastado de ilusões filtradas por ideais comunistas. É separado de uma sociedade patriarcal, regida por valores ainda muito ligados ao clericalismo e à Igreja, onde a condição económica é pior que a sexualidade é menos inibida. É partindo desse pressuposto e dessa observação de uma classe operária desinibida que Reich observa um decréscimo em problemas mentais e neuroses, ou “peste emocional”, como lhe chama.
No seu romance, Pepetela, mostra-nos o mesmo. As relações “abertas”, sexuais de Ondina, mostram essa quebra com uma sociedade patriarcal. Ondina é a representante feminina da classe operária. É desinibida e confiante da sua sexualidade, mas não corresponde de todo à generalidade da mulher angolana da sua época e está um passo à frente no seu tempo.
Se Pepetela é um reformador? Não no mesmo sentido que Reich foi, pois não mostra defender uma revolução social através, sobretudo através de uma revolução sexual, mas aponta um caminho e uma direcção a seguir que passa também por aí.

sexta-feira, julho 10, 2015

Le Petit Prince

Nas palavras psicografadas de Antoine de Saint-Exupéry, por Agualusa no seu livro "O Lugar do Morto", Exupéry dá-nos a fórmula para escrever um livro a ser lido por mulheres bonitas.
"Exupéry" começa por nos apresentar um dado estatístico: "(...), segundo dados recentes divulgados pelo comité organizador do concurso Miss Universo, 87,5 por cento das misses têm como livro de cabeceira Le Petit Prince."
Após esta pequena nota introdutória, "os autores" informam que é necessário um príncipe, viagens, um guru (raposa), etc, etc, etc.
It just so happens that, estando eu à conversa com determinada senhora, esta me informa que - escândalo dos escândalos - "Já não existem príncipes". Diz isto com um ligeiro tom de melancolia na voz. Com uma pequena tristeza no olhar, como que (in)conformada por viver uma idade em que já não acredita em histórias de encantar. Fui obrigado a retorquir, que ainda existem príncipes, como existem princesas. O obrigatório é procurar, não desistir e acreditar pois, quanto mais não seja, "o essencial é invisível aos olhos".
Quis de imediato perguntar porque raio ela haveria de dizer isso, e o que era para ela um "príncipe". Recuei. Tive receio de fazer a pergunta (ou de ouvir a resposta), a garganta deu um nó e disse só "Se existem princesas, porque não podem existir príncipes?". Ela olhou para mim, quase vi os olhos a brilhar, virou a cara e o assunto... virou também.
O problema é que o príncipe, já não aparece numa armadura reluzente, montado a cavalo, para salvar a "recatada donzela". O príncipe, é um anti-herói, cheio de defeitos, com manias de grandeza, com conhecimentos alargados de nada. Mas é um príncipe que nos tempos modernos é humano. Erra como qualquer outro e não tem medo de o demonstrar todos os dias, seja com o tampo da sanita levantado, seja com a roupa espalhada. Mas tem a coragem de mostrar que ama, que deseja, que é inseguro, que tem medos de perder ou de sufocar demais.
Eu acredito em princesas. Encontrei algumas (uma sobremaneira). Gosto de as ir encontrando e compará-las. Será sempre este o meu erro, o meu defeito, a minha mania da grandeza e o meu conhecimento alargado de nada.
Mas não consigo suportar a ideia de que alguém possa ter desistido de AMAR. Pobre criatura!! Quase me compadeço com ela, mas eu Amo.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Violeta

As aventuras aproximaram-nos a todos, fizeram crescer a Amizade, o carinho e o Amor. Já não havia volta a dar. Como uma tatuagem ficariam para sempre gravados uns nos outros. Era algo que Tempo algum ou briga alguma faria apagar.
De repente Pedro escorrega, tropeça nos pés, desequilibra-se e cai. Tenta em vão agarrar-se a alguma coisa, a alguém, mas não consegue. Ele ainda tenta agarrar a sua mão. Escorrega, desliza e entra no caminho Violeta.
Um enorme silêncio é rasgado com o grito da Rita - MAAAANNOOOOOOOO!!!!!!!!!
-Nada a fazer, diz ele. Vai-se esquecer de nós, da mesma maneira que nós dele. Vai demorar algum tempo, mas é o que vai acontecer.
Ela desata a soluçar, as lágrimas começam a correr pela face, o sol começa a desaparecer e as nuvens a surgir. Acinzenta-se o mundo e o coração. -Quando ela chora chove!
-Tem de haver alguma coisa que possamos fazer!

domingo, janeiro 04, 2015

A construção!

Parece mais pequeno quando estamos longe dele. Assim que nos conseguimos finalmente aproximar, fica enorme. Fica gigantesco. Cada cor, leva a um caminho diferente, a um mundo de magia diferente. As cores (ou os caminhos) encontram-se todos alinhados, como que desenhados de propósito. Uma linha ténue separa todos os percursos. Mas os manos são avisados. - Cuidado com algumas das estradas. Nem tudo é bom num arco-íris! Existem criaturas perigosas em todo o lado, mesmo aqui. Mesmo em mundos de magia. Sobretudo em mundos de magia.
Mas que perigos? Que criaturas? - pergunta o Pedro.
Nós vamos seguir pelo caminho Verde. Esse é o caminho da esperança na juventude e na irreverência. Enquanto existirem crianças como vocês, o arco-íris vai continuar a existir. É o caminho que leva a nossa casa. É também o mais comprido para o outro lado, mas ainda assim o mais seguro - disse ele.
Depois há a estrada Vermelha. A estrada que leva à terra das fadas. São seres calorosos, cheios de energia e vitalidade. Mas por norma não se dão muito bem com duendes. A estrada Laranja é uma com a qual se deve ter muito cuidado. É o caminho das emoções. Se tivermos o azar de lá cair, corremos o risco de lá ficar perdidos por tempos indeterminados. Lá os nossos sentimentos são levados ao extremo. A vida é boa, mas tem de ser regrada. Imaginem se sentirem de mais!? É muito perigoso!! É mesmo muito dificil sair de lá. Nem todos conseguem, então pelo sim, pelo não, é melhor não tentarmos descobrir se conseguimos ou não sair. - disse ela
O caminho Amarelo, é o caminho que leva a casa dos Ogres. É também muito perigoso. Os Ogres são muito travesseiros. Gostam muito de fazer partidas, mas normalmente não acabam bem. Para além do mais, para eles somos uma espécie de brinquedos. Têm armadilhas ao longo de toda a estrada, para nos tentar apanhar. E quando conseguem, guardam-nos lá para sermos os seus "bonecos de trapos." O caminho Azul e Anis, são muito parecidos, e por se confundirem, são caminhos de travessuras. São uma espécie de labirinto, que ninguém conhece. Se lá formos podemos acabar na estrada Amarela, ou noutra qualquer, ou mesmo uma passagem directa para o fim do arco-íris. Mas é impossível saber..
E a Violeta? - perguntou a Rita.
Era o que ia explicar agora. A Violeta é a do esquecimento. Se lá formos, esquecemos tudo e todos. Mas o mais perigoso é que também seremos esquecidos. Ninguém em lado nenhum se lembrará de nós. Ninguém dará pela nossa falta.

segunda-feira, agosto 11, 2014

L- word

It has been so long since the last time i said this word, i forgot what it means.
The L-word. What is it? What it stands for? Why use so many times if at some point you will only use it because?
I've heard you say it. But did you mean it? I've seen you write it, but do you even know how it's read? Do you know it's read with your mind, or with your heart? Do you know it must be said with your eyes wide open and your mouth wide shut?
I know you don't! But i knew. And because of you, now, i don't know either.
Because of that... Go fuck yourself 'cause i Love you.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Ouves!?

Parada na porta. É assim que me encontro. Feita espantalho no meio do corredor. Os únicos pássaros que espanto são as dúvidas que me assolam. Bato ou não? Fico ou vou? Falo ou calo?
Aquele nervoso miudinho igual ao primeiro dia de escola corre todas as partes de mim, toma-me por completo e vem-me um sabor amargo à boca. Aquele sabor de "quase vómito" de bebedeira. Dá-se um nó de marinheiro na garganta. Um daqueles nós que nunca dei, nem nunca vi. Um daqueles nós que, só sabendo se conseguem desatar.
É então que me decido. Vou-me embora. Não consigo. Tenho medo. Enfraqueço e acovardo-me. E naquele momento em que vou virar as costas para me ir embora, naquele instante de desistência, exactamente naquele segundo em que tenho plena consciência da minha condição de medricas, precisamente aí, o meu corpo deixa de me obedecer. Olho de fora para mim e vejo a minha mão a levantar-se, o punho a cerrar-se. Ainda tento voltar para dentro de mim. Ainda tento evitar o que se segue mas... bato. O som oco de pele e osso na madeira ecoa pelo espaço vazio. Olho à volta e tudo desaparece. Não há escadas, nem janelas. Tudo escuro. Só eu e a porta em que bati.
Como espantalho preso e sem movimentos, fiquei colada ao chão. Não consigo mexer-me.
Acho que se não abrires a porta, se não estiveres em casa, ficarei no mesmo sítio até te ver. Até falarmos.
Penso. A única coisa que ainda consigo fazer. Aquele faculdade sobre a qual ainda tenho pleno controlo. O que vou dizer? Como? E se me interromperes? E...
(A porta faz um barulho)
Vêmo-nos. Faz tempo que não o fazíamos.
Num impulso, empurro a porta e vou entrando (se o fizeste, porque não posso fazer o mesmo?!)
Páro no meio da sala (sinto-me nua, despida) e quando me volto, estás a acabar de fechar a porta.
- O..
- Cala-te! Não digas nada. Não abras a boca. Se estiveste tanto tempo calado, bem podes ficar mais um bocado para ouvir o que tenho a dizer. Se não fôr agora, não sei se alguma vez serei capaz de o dizer (mas quem sou eu? não me reconheço. pensei tantas vezes no que te haveria de dizer, mas nenhuma delas começava assim, ou mesmo neste tom de voz. a única coisa que te queria dizer era que sentia falta das nossas conversas, que te amava, que...) Vais-me apanhar a divagar, fartar-te de me ouvir. Mas calas-te e ouves!

segunda-feira, novembro 25, 2013

Cartas de nós para nós

Buongiorno principessa:

A escrita é algo de mágico. É através da escrita que expio medos, pensamentos, pecados. Mas é também através dela que nos reinvento. Que nos junto.

Faz tempo desde a última vez que te escrevi. Faz tempo desde a última vez que te vi. Faz tempo desde a última vez que disse a mim próprio que sentia a tua falta, mas também me disse que não sentiria mais a tua falta. Tão grande mentira.
Credo!! Faz tanto tempo que já nem me lembro das feições da tua cara. Tenho de ir às fotografias antigas. Para ouvir a tua voz, tenho de ir aos vídeos. Mas não é a mesma coisa. As caixas de som distorcem o som da tua voz. Não é como me lembro. É diferente. É metálico! E nas fotografias, não posso sentir o calor do teu corpo enquanto a minha mão se passeia a descobrir novas rotas na tua cara.
Os teus cheiros desapareceram da minha mente. Já não me consigo lembrar dos cheiros. Mas como poderia? Tanto tempo que já passou desde a última vez que os senti. Mas lembro-me que eram agradáveis. Tudo era agradável quando estávamos juntos. O tempo passava a correr e, eu sentia-me ébrio na tua presença. Parava para te ouvir falar. Queria que o tempo discorresse à mesma velocidade dos gelos primaveris que derretem com a chegada dos primeiros raios de sol. Mas quando estava contigo, ele apressava-se a levar-te para longe de mim. E de tanto que se apressou, um dia te levou, para não mais trazer.
Mas não guardo a mágoa. Mesmo que não te volve a ver, a sentir, a ouvir ou a cheirar, mesmo que não nos voltemos a encontrar, junto-me a ti sempre que quiser(es).


À espera da tua resposta, um beijo:

NÓS

terça-feira, setembro 03, 2013

Porque quero!

Um silêncio da savana instalava-se. Tal como ele, esse silêncio, era quebrado de tempos a tempos, por algum barulho longínquo. Assemelhava-se a uma batida seca... de um coração. Era essa batida, esse som que o fazia ver que estava vivo! Estava sozinho no meio de tudo o que o rodeava. Mas se se encontrava sozinho era porque assim o entendia. Remeteu-se para si mesmo e não mais se permitiria a voltar do lugar escuro, sombrio, gélido em que se encontrava.
Outros tempos houve em que quase o fez. Quase voltou.
Na fortaleza que havia erigido para si, deixou uma fresta, uma minúscula fresta por onde chegavam os sons do mundo, as lembranças, os desejos. Mas nem só.
Uma certa noite, surge-lhe por essa fresta, um vulto, um ser daqueles com quem há muito havia deixado de conviver e em quem havia deixado de acreditar.
Ela aparecia-lhe durante a noite. Era com ela que os barulhos ganhavam frequência e se tornavam mais audíveis. Trazia com ela um prenúncio de vida. Foi ela que quase o fez querer deixar o seu desterro.
Ela era esbelta e esguia, ventre plano. Era um ser do deserto e movia-se como o vento das areias. Os seios como duas dunas imponentes, convidavam ao olhar. Os olhos... Esses eram expressivos e quentes como o sol que assola, queima e aquece o deserto. Contrastavam com o coração, gelado e escuro como as noites do deserto.

Durante noites, nada mais fizeram que olhar-se. Tentarem entender-se nos olhos um do outro, nos seus silêncios. Muito tempo passou até que se decidissem a quebrar o silêncio que os separava, até decidirem quem seria o primeiro a proferir a primeira palavra. Como se se tratasse do "verbo" bíblico. Como se a primeira palavra fosse a mais importante de todas. Como se fosse a única razão para continuarem ou se perderem para sempre no distante silêncio que tinham erigido entre eles.
Eis então que ela levanta a face e ele pode apreciá-la pela primeira vez, desde o primeiro dia. Nota a pele morena, o nariz direito, mas ligeiramente arrebitado na ponta. Os olhos grandes e claros. E os sinais. 3 muito discretos, mas que lhe cativavam o olhar e o obrigavam a fixar-se nela.
"Porque estás aqui?" A voz era tão doce como um delicioso mel. Tão fluída como um natural ribeiro selvagem. Aquele som arrepiou-o, estremeceu-o até ao mais mínimo de si.
"Não sei nem quero saber! Porque quero! Por ti! Sim. Por ti." "Mas queres porquê? Sabes o que perdes? Por mim? Por mim?" Fazia perguntas de mais. Queria saber de mais.

terça-feira, julho 16, 2013

!!!

Fechei! Não quero voltar a desejar, a querer, a precisar ou mesmo amar. Entrego o meu coração nas tuas mãos, para dele fazeres o que bem te apetecer. Mas sabe que será teu. O que senti ou sinto por ti, não me permitirei a sentir por mais ninguém.
Podem aparecer outras pessoas na minha vida. Posso até voltar a gostar de alguém. Mas o que algum dia imaginei e sonhei fazer contigo, não o farei com ninguém. Serás sempre a única pessoa com quem desejo e alguma vez desejarei passar o resto dos meus dias

segunda-feira, junho 24, 2013

A felicidade é subjectiva!

Se algum dia lhe perguntasse porque tinha feito o que fez, responderia que seria para que com a sua infelicidade, ela pudesse ser feliz!
Há sempre alguém que sai a perder, daí ser subjectiva.

segunda-feira, abril 01, 2013

Dá só com meio coração?



Acordo sobressaltado a meio da noite. Rebolo e volto a rebolar, mas o Pestana teimou em me abandonar. Pergunto ao relógio se falta pouco e ele informa que a noite ainda mal começou. E então tudo recomeça!

Sinto! Sinto tudo de todas as maneiras. Uma comichão enorme no peito. E por mais que coce, ela teima em continuar, até que me lembro que a comichão não é por fora. É por dentro!








E quando me perguntaram o que via nela, respondi que via o que faltava em mim!

Não cabe... Cabe...

Não cabe no peito o que te dei. O que te quero dar. O que algum dia te poderia dar.
Não cabe na distância que nos separa o desejo de te ver, de te beijar, de te acariciar.
Não cabe em espaço algum a tristeza da tua frieza, do teu afastamento.
Mas cabe no meu coração o prazer da tua presença todos os dias na minha cabeça.

terça-feira, março 05, 2013

My first book

E de repente, aquelas palavras gelaram o seu mundo. Eram palavras vindas directamente das mais remotas calotas polares. E fizeram-no pensar no seu mundo. Todos os seus problemas pareciam insignificantes perante este novo desafio que se lhe era apresentado.
Era difícil. O seu Castelo de Cartas, que tanto tempo e trabalho lhe havia dado a construir, ruia agora, perante a sua impotência.
Que fazer? Como refazer toda a sua construção? Como se reconstruir? As perguntas impunham-se à medida que ela continuava a gelar tudo com as suas palavras. "Eu já não te amo. Foste simplesmente um acidente de percurso." Como podia aquilo estar a passar-se? O que iria na cabeça dela, que a fizesse mudar tanto em tão pouco tempo?
As perguntas entupiam a sua cabeça, ao ponto de, já não a conseguir ouvir a falar e não entender nada do que ambos dissessem.
Os termómetros marcavam 0 graus, mas depois de tamanha baldada de água fria, nada mais lhe parecia frio a não ser a sua alma. Tinha gelado depois de ouvir as suas palavras.
Todos os seus pensamentos lhe fugiam para lugares remotos, de temperaturas amenas, para sítios que pudessem descongelar o que acabavam de lhe congelar.
Só conseguia pensar em termos de escuridão, de névoas, de futuros incertos... de morte! Por mais que tentasse encontrar no seu íntimo, praias paradisíacas, as únicas imagens que lhe atravessavam a mente, eram imagens de momentos de êxtase que havia passado com ela. Só pensava na noite anterior, em que tinham feito amor. "A noite passada não significou nada para ti?" "Nem por isso. Não é preciso Amor para ir para a cama com alguém!"
Foi nesse exacto momento que as suas gélidas palavras lhe arrancaram o coração, com a crueldade com que um carrasco puxa a cadeira a um enforcado. Foi nesse exacto momento que a ideia que tinha construído em redor dela se desfez. Foi nesse momento que deixou de se sentir, deixou de sentir calor, virou costas e desapareceu.

Tinha de chegar a casa o mais cedo possível. Tinha de se refugiar naquele sítio que sempre lhe transmitira a segurança de uma cidade muralhada. Tinha de chegar ao seu quarto. E à medida que se aproximava dessa sua impenetrável fortaleza, começou a refazer o seu futuro.
Começou a pensar em tudo o que tinha deixado por ela. Nos amigos, nos locais e em tudo mais.
Assim que chegou ao seu santuário, deixou-se inebriar pelas recordações que aquele espaço lhe trazia, fechou os olhos e dormiu. Amanhã seria um novo dia.

Ela sentiu-se aliviada por deixar sair o que há tanto tempo lhe perturbava a alma. Como poderia ela ter aguentado dois anos mais que o que devia. Muito a tinham ajudado os amigos. Particularmente os dele. Sempre lhe haviam dito que era uma fase passageira, que as coisas haviam de passar, mas por mais ouvidos que desse à razão, o coração lhe indicava outro caminho, outra pessoa. O que ela via agora, era uma porta que se abria de novo na sua vida, sem nunca pensar no enorme vazio que tinha provocado noutra pessoa, sem nunca pensar que mais tarde seria incapaz de voltar a sentir o que antes havia sentido e experimentado.

À medida que os dias, os meses, os anos passavam, as suas vidas tinham seguido caminhos diferentes.
Ele havia refeito as suas prioridades. Houveram alturas, em que chegou a pensar na imensa solidão que poderia significar uma vida sem Amor. Mas esse receio, cedo se desvaneceu. Ele sempre havia sido uma pessoa extremamente fácil de tratar. Sempre teve facilidade em encontrar o bom em todas as pessoas, sem se preocupar que se pudesse magoar, sem se preocupar que o pudessem magoar. A partir daquele momento ele continuaria a ser ele mesmo, mas com a diferença, que também ele próprio passara a ser o centro das suas atenções e, nada do que lhe dissessem o faria mudar de ideias.

Naquela noite, nem lhe apetecia muito sair de casa, mas tinha prometido a uns amigos que se encontraria com eles. Assim, a muito custo, lá se arranjou, sempre da mesma maneira, jeans, sweat e sapatilhas rotas. Longe ía a ideia de que aquela noite o transformaria para sempre. Longe ía a ideia de que aquela noite iria apressar acontecimentos desastrosos.
Ao chegar ao local, apressou-se a cumprimentar os presentes e, a fazer-se apresentar aos desconhecidos. Uma em particular. Ela. Foi nessa noite que tudo começou.
As banalidades e trivialidades de uma conversa de café, sucederam-se. Mas ela não parava de o examinar. Examinou-o com e delicadeza com que um apicultor trata as suas abelhas. Examinou-o com o cuidado de um cirurgião. E deixou-se enganar. Não viu que apenas procurava um escape para o buraco onde antes se tinha atolado. Não pensou no que pudesse suceder. No final da noite seguiriam caminhos separados, mas voltariam a cruzar-se dias depois. Ela de tudo faria para, não mais o deixar fugir. Estava decidida a conseguir o que queria.





Não mais se tinham encontrado, nem sequer trocado palavras.
Ele tinha-se refugiado nas pessoas que sempre lhe importaram. Nos seus amigos. Tinha encontrado a força para continuar, nas muitas palavras de afecto que lhe haviam dirigido. "Esquece! Life goes on"